Por Celso Dobes Bacarji, da Envolverde
Com o desenvolvimento do conhecimento técnico-científico nossa sociedade foi optando por consumir produtos cada vez mais dependentes das novas tecnologias. Hoje precisamos classificar de "orgânicos" quando queremos nos referir a alimentos produzidos sem o uso da tecnologia química, em toda a sua cadeia.
A indústria química do século 20 foi um sucesso retumbante. Uma tecnologia tão poderosa que conquistou mentes, corações e bolsos antes mesmo de se terem respondidas muitas questões sobre a sua segurança para a saúde humana e para o meio ambiente como um todo.
A sociedade foi forçada a consumir em massa produtos (não só alimentícios) impregnados de tecnologia química, como se fosse uma nova fruta, saborosa e nutritiva. Hoje, não há alimento no supermercado, fora das prateleiras de orgânicos, que não contenha desde um defensivo agrícola na sua produção até um conservante químico na sua industrialização, sem falar nas emissões de gases e outros efeitos colaterais desse modo de produção.
Estima-se que a indústria química tenha pelo menos 75 mil produtos diferentes utilizados em agrotóxicos, alimentos, remédios, plásticos, tintas, papéis, e subprodutos do petróleo. A química permite uma combinação tão fértil que todo ano esta indústria registra pelo menos mil novos produtos no mundo. Diante da falta de alternativas, e de informações, enfiaram-nos guela abaixo substâncias químicas que nunca antes haviam habitado o corpo humano. Muitas delas nem estavam presentes na natureza de forma pura.
A pergunta básica é: por que motivo somos obrigados a comer química pura? em outras palavras, esse "alimento" é bom pra quê, ou pra quem? Para a minha saúde não é, com certeza. Ou alguém tem alguma dúvida de que isso não faz bem? Também não é bom para a natureza, está mais do que claro.
Começam a crescer no mundo as discussões sobre os chamados "disruptores endócrinos". São produtos químicos sintetizados artificialmente e estrogênios naturais produzidos por plantas ou metabólitos de fungos, presentes em champus, detergentes, anticoncepcionais, remédios e outros, amplamente consumidos pela sociedade, que depois de percorrerem os esgotos e lixões dos centros urbanos contaminam o solo e os mananciais, atingem uma cadeia alimentar extensa e provocam doenças nas principais glândulas de homens e animais, inclusive câncer.
Não é preciso ser nenhum gênio para perceber que uma gama enorme de produtos que consumimos hoje só existem para beneficiar atividades de produção, como combater pragas, aumentar a produtividade, a vida útil antes do consumo, reduzir mão-de-obra, melhorar o "custo-benefício", enfim, vários sinônimos de "aumentar os lucros". Não há vantagens qualitativas para o consumidor. Ninguém vende defensivo agrícola fazendo propaganda de seus efeitos sobre as qualidades nutritivas dos alimentos.
Então por que comemos esses produtos? Na verdade caímos nessa armadilha aos poucos, fomos iludidos, usaram muito bem a propaganda, esconderam, omitiram e até mentiram, para fazer parecer que a indústria química, como ela é explorada hoje, é completamente inofensiva. Os desastres já foram muitos até agora: com o metil-mercurio, a talidomida, o dietilestilbestrol, o DDT, o PCB e outras sopas de letrinhas, além de tragédias como em Cubatão, na Índia e por aí vai. O balanço de custo-benefício dessa indústria para o mundo já está no vermelho há muito tempo. Mesmo assim, continuamos acreditando nesse modo de produção ganancioso e enganador.
Mas, se entramos nessa onda por falta de alternativas, ou enganados, agora não temos mais desculpa. Sabemos de todas as suas mazelas. E, além disso, já é possível imaginar uma agricultura orgânica em larga escala com inúmeras vantagens sobre agricultura química convencional, entre elas, talvez a mais importante, a sua capacidade de a geração de empregos. Da mesma forma as outras atividades orgânicas como a pecuária, a piscicultura, a criação de frangos, suínos e a florestal.
A produção orgânica não é uma atividade simples e fácil de ser desenvolvida como a princípio se pressupõe. Ela também exige conhecimento e tecnologia, além da mão de obra mais intensiva. No contexto de uma economia verde, talvez seja uma das atividades que tem maior potencial de geração de renda. E, se praticada em escala, tem condições de reduzir significativamente seus custos, barateando seu preço final.
Uma pesquisa feita pela Market Analysis revela que cerca de 17% dos consumidores urbanos brasileiros já optaram pelos produtos orgânicos, embora o mercado ainda seja abastecido por apenas 2% do total de produtores agrícolas do país. Ou seja, a demanda por esse tipo de alimento já é alta e vem crescendo rapidamente. São mais de 3,5 milhões de brasileiros consumindo produtos orgânicos entre uma e cinco vezes por semana, segundo a pesquisa, realizada nas nove principais capitais do país, na faixa etária entre 18 a 69 anos. Só em São Paulo são mais de um milhão de consumidores, número expressivo, considerada a faixa etária.
A produção de orgânicos tem-se tornado um negócio tão atraente que conquistou rapidamente as redes de supermercados. O diretor da pesquisa da Market Analysis, Fabian Echegaray, diz que a venda desse tipo de produto deixou de ser exclusiva de feiras ecológicas, de rua, ou de lojas especializadas, e ganhou as prateleiras das grandes redes de supermercado. Segundo a pesquisa, 77% dos entrevistados adquirem produtos orgânicos nos supermercados.
A agricultura orgânica é uma das atividades econômicamente em alta, atualmente, que tem o maior potencial para atender necessidades específicas e urgentes dos países pobres e emergentes, onde uma grande parcela da população rural é desprovida de recursos econômicos e tecnológicos para desenvolver uma agricultura química e mecanizada.
No caso do Brasil, calcula-se que através de políticas públicas apropriadas seria possível absorver nessa modalidade de produção 70% os agricultores familiares hoje excluídos da agricultura química. Bastaria vontade política e investimentos especialmente no treinamento dessa população nos princípios da agricultura orgânica, que aborda a propriedade rural como um organismo.
Não há, portanto, justificativas plausíveis para que continuemos a produzir movidos pela máquina da agricultura química e dependentes dela. Claro que não podemos sair de um sistema tão complexo de produção para outro, completamente diferente, de uma hora para outra. Claro que é preciso caminhar mudando. Mudando hábitos de consumo, mudando a forma de ver o mundo, a economia e, principalmente, a ciência.
Temos feito a carroça da economia andar na frente dos bois, há muito tempo, especialmente a partir do século passado. Não é possível que a ciência seja arrastada pelos interesses econômicos, instrumentando alucinadamente novas tecnologias, para girar o mercado e concentrar renda. Seu verdadeiro papel não é
fomentar a máquina da produção a qualquer custo, e sim encontrar soluções para que todos tenham acesso a uma produção saudável e sustentável.
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
FINACIAMENTO AO MÉDIO PRODUTOR AUMENTOU 500%

A aplicação de recursos do Programa de Geração de Emprego e Renda Rural - Proger Rural totalizou R$ 1,38 bilhão, de julho a novembro de 2009, contra R$ 230 milhões investidos no mesmo período de 2008, segundo dados divulgados semana passada pelo Ministério da Agricultura, sendo que o maior crescimento foi verificado entre os médios produtores rurais, cuja tomada de crédito foi 500% superior ao da safra passada.
O resultado se deve à decisão do governo federal de ampliar o Proger Rural para que atendesse o maior número de beneficiários na safra 2009/2010. O volume de recursos programado para este período atinge R$ 5 bilhões, representando 72% a mais que na safra anterior e com estas modificações, o programa oferece condições efetivas para esse agricultor crescer e ampliar a produção. "O médio produtor rural gera renda e empregos no campo", explica ele.
O limite de financiamento pode ser elevado em 15% se o beneficiário comprovar, por exemplo, a existência de reservas legais e áreas de preservação permanente previstas na legislação ou apresentar plano de recuperação aprovado pela Secretaria Estadual do Meio Ambiente, Ibama ou Ministério Público Estadual. Ou ainda se participar do Sistema Agropecuário de Produção Integrada (Sapi) e possua certificação da sua produção concedida pelo Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro), entre outros.
O prazo para reembolso do custeio agrícola é de até dois anos, conforme o ciclo de cada safra; o de custeio pecuário é até um ano; e o de investimento, até oito anos, incluindo três anos de carência.
Referência
Um dos principais objetivos do Plano Agrícola e Pecuário 2009/2010 foi justamente fortalecer o apoio aos médios produtores. Entre as medidas de incentivo à classe média rural estão:
- ampliação dos limites de financiamento para custeio de R$ 48 mil para R$ 250 mil (e o de investimento para R$ 200 mil)
- criação de nova modalidade de crédito rotativo (R$ 50 mil)
- duplicação do limite de renda bruta anual para enquadramento do beneficiário (passando de R$ 250 mil para R$ 500 mil)
- criação da subexigibilidade de 6% sobre depósitos à vista dos bancos, garantindo recursos para os agricultores.
Beneficiados -
Os beneficiários podem ser proprietários rurais, posseiros, arrendatários ou parceiros, cuja renda seja originaría, no mínimo em 80% de sua atividade agropecuária ou extrativa vegetal. Também houve alteração no cálculo da renda bruta, levando em conta a atividade do produtor, de forma que um percentual de desconto, o rebate, seja aplicado conforme determinado setor.
Os percentuais de rebate são de 20% para ovinocaprinocultura, aquicultura, sericicultura, fruticultura, cafeicultura e cana-de-açúcar; 40% para olericultura, floricultura, pecuária leiteira, avicultura e suinocultura não integradas; e 80% para avicultura e suinocultura integradas ou em parceria com a agroindústria.
FARINHA DE MANDIOCA TERÁ IDENTIDADE E QUALIDADE REVELADA

O texto que regulamentará o padrão oficial de classificação para a farinha de mandioca, com os requisitos de identidade e qualidade, amostragem, modo de presentação e rotulagem continua em consulta pública por mais noventa dias. A consulta foi aberta dia 12 deste mês e se estende até 12 de abril.
Entre 5 de outubro de 2009 e 5 de janeiro de 2010, a Portaria 347 colocou a proposta de instrução normativa com o regulamento técnico para a farinha da mandioca à disposição do público. Nesse período, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) recebeu sugestões de usuários do Acre, Paraná, Bahia, Mato Grosso do Sul, Pará e Distrito Federal.
O coordenador-geral de Qualidade Vegetal do Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Vegetal da Secretaria de Defesa Agropecuária do Mapa (DIPOV/SDA), Fernando Penariol, ressalta que o prazo foi prorrogado para que o setor possa enviar mais propostas de mudanças ao texto. “A farinha de mandioca é muito produzida e comercializada no País e apresenta características regionais de grande importância para a economia. Por isso, quanto mais sugestões o Ministério da Agricultura receber, melhor poderá atender aos mercados.”
Produção
De acordo com o último levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2006, a produção brasileira de farinha de mandioca foi de 1,193 mil toneladas. Na época, eram 265 mil estabelecimentos do setor e o Nordeste se destacava como a região com o maior número de agroindústrias rurais, com 77 mil unidades na Bahia e 47 mil no Maranhão, por exemplo. O Pará concentrava 41 mil e Minas Gerais 17 mil.
http://www.dzai.com.br/oimparcial/blog/aquilesemir
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
A AGROECOLOGIA EM CUBA
*Ana Margarita González** *
Agencia Prensa Rural
O movimento agroecológico em Cuba é um esteio para garantir a segurança alimentar e substituir quantidades significativas de alimentos, combustíveis, agrotóxicos e adubos químicos. Mais de 110 mil camponeses aplicam essas técnicas em seus cultivos ou na criação de animais, e cerca de 120 mil praticam a agricultura orgânica.
Orlando Lugo Fonte, presidente da Asociación Nacional de Agricultores Pequeños (ANAP), fez essas colocações a Trabajadores (informativo da Central de Trabalhadores de Cuba) na cidade de Güira de Melena, no encerramento do II Encontro Internacional de Agroecologia e Agricultura Sustentável, ao qual assistiram uma centena de estrangeiros e 70 cubanos.
Os delegados constataram os avanços desse movimento nas propriedades e cooperativas de várias províncias do país e ficaram impressionados pelos resultados produtivos, que "não são ainda os ideais, mas são alentadores se comparados com os de dois anos atrás, quando assistiram ao I Encontro", assegurou o dirigente camponês.
"Nós, os cubanos, somos, em todo o mundo, os mais obrigados a desenvolver e estender as práticas da agroecologia e da agricultura sustentável, por que temos um país e uma economia bloqueados há mais de 50 anos e dependemos da importação de grande quantidade de alimentos para manter os níveis adequados de nutrição que a população necessita. Esse tipo de agricultura produz alimentos mais baratos e sãos", assegurou o dirigente campesino.
Lugo Fonte destacou o desenvolvimento inicial da agricultura suburbana, que integrará milhares de camponeses e cooperativistas e que terá como premissa o uso da tração animal e os adubos e pesticidas orgânicos e biológicos.
Informou ainda que este ano deve concluir com a produção de 100 mil toneladas de húmus de minhocas e 150 mil toneladas de adubos orgânicos, números que serão uma garantia para a produção agroecológica. Também comunicou que, em todo o país, há mais de 800 pessoas dedicadas a dar assistência à agroecologia, e que em muitas cooperativas já existem técnicos capacitados para assessorar essa atividade, razão pela qual é factível continuar ampliando essas práticas.
Peter Rosset, especialista da organização internacional Via Campesina, afirmou que Cuba é um farol do movimento agroecológico mundial, por que percebeu precocemente a necessidade de colocar a família camponesa como protagonista das transformações de sua própria realidade.
O pesquisador norte-americano defende a teoria de substituir o uso de produtos químicos e a mecanização nos processos agropecuários, pelos danos irrecuperáveis que causam aos solos, ao meio ambiente e conseqüentemente ao ser humano. Reconheceu a dinâmica alcançada pelos agricultores cubanos para reverter essa política, e a integração com os centros científicos de pesquisa para enfrentar desafios maiores.
http://www.prensarural.org/spip/spip.php?auteur956
Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti
Agencia Prensa Rural
O movimento agroecológico em Cuba é um esteio para garantir a segurança alimentar e substituir quantidades significativas de alimentos, combustíveis, agrotóxicos e adubos químicos. Mais de 110 mil camponeses aplicam essas técnicas em seus cultivos ou na criação de animais, e cerca de 120 mil praticam a agricultura orgânica.
Orlando Lugo Fonte, presidente da Asociación Nacional de Agricultores Pequeños (ANAP), fez essas colocações a Trabajadores (informativo da Central de Trabalhadores de Cuba) na cidade de Güira de Melena, no encerramento do II Encontro Internacional de Agroecologia e Agricultura Sustentável, ao qual assistiram uma centena de estrangeiros e 70 cubanos.
Os delegados constataram os avanços desse movimento nas propriedades e cooperativas de várias províncias do país e ficaram impressionados pelos resultados produtivos, que "não são ainda os ideais, mas são alentadores se comparados com os de dois anos atrás, quando assistiram ao I Encontro", assegurou o dirigente camponês.
"Nós, os cubanos, somos, em todo o mundo, os mais obrigados a desenvolver e estender as práticas da agroecologia e da agricultura sustentável, por que temos um país e uma economia bloqueados há mais de 50 anos e dependemos da importação de grande quantidade de alimentos para manter os níveis adequados de nutrição que a população necessita. Esse tipo de agricultura produz alimentos mais baratos e sãos", assegurou o dirigente campesino.
Lugo Fonte destacou o desenvolvimento inicial da agricultura suburbana, que integrará milhares de camponeses e cooperativistas e que terá como premissa o uso da tração animal e os adubos e pesticidas orgânicos e biológicos.
Informou ainda que este ano deve concluir com a produção de 100 mil toneladas de húmus de minhocas e 150 mil toneladas de adubos orgânicos, números que serão uma garantia para a produção agroecológica. Também comunicou que, em todo o país, há mais de 800 pessoas dedicadas a dar assistência à agroecologia, e que em muitas cooperativas já existem técnicos capacitados para assessorar essa atividade, razão pela qual é factível continuar ampliando essas práticas.
Peter Rosset, especialista da organização internacional Via Campesina, afirmou que Cuba é um farol do movimento agroecológico mundial, por que percebeu precocemente a necessidade de colocar a família camponesa como protagonista das transformações de sua própria realidade.
O pesquisador norte-americano defende a teoria de substituir o uso de produtos químicos e a mecanização nos processos agropecuários, pelos danos irrecuperáveis que causam aos solos, ao meio ambiente e conseqüentemente ao ser humano. Reconheceu a dinâmica alcançada pelos agricultores cubanos para reverter essa política, e a integração com os centros científicos de pesquisa para enfrentar desafios maiores.
http://www.prensarural.org/spip/spip.php?auteur956
Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
OS DASAFIOS DA AGRICULTURA FAMILIAR
Dentre as políticas públicas priorizadas pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) nos últimos anos, certamente o incentivo à agricultura familiar ganha destaque. Dentro dessa linha, em junho de 2009, o governo federal sancionou uma lei que estabelece que um mínimo de 30% dos recursos disponíveis para compra de alimentos da merenda escolar seja proveniente da agricultura familiar, priorizando assentamentos de reforma agrária e comunidades indígenas e quilombolas. Apesar disso, quem não é do meio rural desconhece a importância desse segmento, e especialistas apontam desafios que ainda precisam ser vencidos, como a distribuição de renda no campo e fixação do pequeno agricultor, a universalização do crédito e a transferência de tecnologia às propriedades familiares.
De uma forma geral, a parcela da população urbana é pouco informada sobre o papel da agricultura familiar em suas vidas, quais nichos ela vem ocupando, principalmente no abastecimento interno, e qual a sua importância social. Entretanto, dados do MDA indicam que 70% de alimentos consumidos no Brasil são provenientes da agricultura familiar, que participa de 9% do produto interno bruto (PIB) do país, ou seja, um terço do agronegócio brasileiro. Mesmo assim, especialistas acreditam que ainda existem muitos desafios a serem enfrentados para a preservação da agricultura familiar pelo país.
Para o professor Manoel Baltasar Baptista da Costa, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), a agricultura familiar assume a importância fundamental de empregadora de uma considerável parcela da população rural. “A questão mais séria é a de geração e distribuição de ocupação e renda”, explica Baltasar. Além disso, segundo ele, em alguns países da Europa, a agricultura familiar é preservada inclusive na perspectiva cultural, e sua importância transcende fatores puramente econômicos. “Eu acho que não podemos ficar nesse reducionismo do lucro e da escala, mesmo porque essa agricultura do agronegócio está nos levando ao suicídio pelo processo de devastação”, opina.
Outra questão em jogo é o êxodo rural, que mudou a configuração demográfica do país em décadas passadas e ainda hoje é preocupante. Por questões econômicas, muitos jovens agricultores acabam por abandonar as propriedades e migram para as cidades. “O jovem não está ficando. Ele está evadindo, e você vê isso, inclusive, em processos de reforma agrária”, afirma Baltasar. Para o professor da UFSCar, atualmente, a maior causa de evasão de jovens do campo é a baixa renda da produção familiar. “Eu, particularmente, acho que com a baixa qualidade de vida urbana, se na agricultura a renda fosse um pouco maior, existiriam condições de fixar muita gente no campo”, completa.
Para o professor Jalcione Pereira de Almeida, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), é necessário política pública consequente, de longa duração e que beneficie esse segmento. “Sem isso, é muito pouco provável que a gente vá conter o êxodo, o abandono e a degradação dessa agricultura”, acredita. Almeida aponta como um dos problemas do setor o fato de que, muitas vezes, mesmo os recursos disponíveis não chegam aos pequenos produtores. “Muitos desses agricultores nunca chegaram na porta de um banco. Então, nesse caso, o banco tem que chegar, a política tem que chegar ao agricultor”, completa.
Segundo Almeida, o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), principal linha de crédito oferecida pelo governo federal ao agricultor familiar, muitas vezes não consegue chegar aos agricultores mais isolados no interior do Rio Grande do Sul, que não têm acesso a telefone ou internet. “Eu acho que tem como pensar políticas baseadas no crédito que possam alavancar a produtividade dessa agricultura familiar e viabilizá-la”, conclui.
Além do Pronaf, que disponibiliza até R$ 40 mil por agricultor, existem outras formas de financiamento via governo federal: Microcrédito Rural; Pronaf Mulher, que atende às mulheres agricultoras; Pronaf Floresta nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, para lavouras que planejam desenvolver projetos de sistemas agroflorestais; e auxílio às cooperativas de produção com base na agricultura familiar. O MDA também disponibiliza aos agricultores familiares financiamentos para veículos utilitários e uma política de seguros, através do Seguro da Agricultura Familiar (Seaf) e do Programa de Garantia de Preços da Agricultura Familiar (PGPAF).
Alinhados com os programas de crédito rural do governo, o Banco do Brasil e a Nossa Caixa também oferecem financiamento através do Pronaf, com juros de 1% a 5% ao ano, dependendo da renda e da destinação do recurso, e prazo de pagamento de até 2 anos, além dos financiamentos rurais tradicionais, que oferecem juros de 6,75% ao ano e prazo de pagamento de até 5 anos.
Mas como conciliar a produção com o aumento da demanda mundial por alimentos? Nos últimos anos, o aumento da população mundial e o consequente aumento da demanda por alimentos colocaram a agricultura como uma questão estratégica que vem ganhado ainda mais importância. Para Almeida, da UFRGS, essa questão é enganosa, pois é um problema essencialmente de distribuição do alimento e não de sua produção. “O que adianta aumentar a produtividade na Europa Ocidental e nos Estados Unidos, se esse aumento de produção vai continuar concentrado? Ou seja, se não houver uma desconcentração, se não houver capacidade competitiva maior entre os diferentes continentes, políticas públicas adequadas e condições para esses países onde tem pobreza e necessidade de implementar a produção, eu acho que dificilmente nós vamos resolver o problema da fome”, pondera. “Ou nós descobrimos formas de produzir alimento viável, compatível ambientalmente, socialmente e economicamente, nessas regiões que têm mais carência de fome e via agricultura familiar, fundamentalmente, ou nada feito”, completa. A questão da tecnologia rural para a agricultura familiar é outro ponto chave. Para Almeida, o cerne da questão é preservar a diversidade da agricultura familiar e evitar a padronização que ocorreu com a agricultura patronal nos últimos 40 anos, após a revolução verde. “É possível pensar em tecnologia, em avanço tecnológico e inovação no sentido de adequá-las às necessidades, às demandas dos diferentes tipos de agriculturas familiares ou de agriculturas de um modo geral, que existem no mundo. E daí nós vamos ter um quadro diverso de demandas que vai promover o desenvolvimento de diferentes agriculturas, que certamente serão muito melhor adaptadas a contextos específicos”, diz.
O professor da UFRGS ainda pondera que apenas recentemente se pensa em modernização, em avanço, em inovação tecnológica, pesquisa e extensão mais voltados para esse segmento específico de agricultura, no mundo inteiro. Segundo ele, a agricultura familiar é potencialmente capaz de alavancar a produção alimentar em escala local e pode fazer frente a essas exigências de alimento para combater a fome e a miséria no mundo.
Baltasar, da UFSCar, acredita que as tecnologias devem ser pensadas cuidadosamente para que sejam factíveis e não se perca de vista o grupo alvo. “Uma tecnologia capital intensiva para um segmento que não tem capital, uma tecnologia estandartizadora do ambiente numa região que a gente trabalha com a biodiversidade”, explica. “Então, eu acho que seria muito importante um esforço maior da área de ensino, de pesquisa e do poder público, na perspectiva de tratar a agricultura familiar de uma forma diferenciada”, continua.
Além disso, o professor da UFSCar acredita que é preciso levar em conta o custo ambiental da atividade agrícola para se medir os ganhos. “Eu acho que se fazendo mais investimentos de pesquisa, em pouco tempo, a agricultura familiar vai se mostrar mais eficiente que a convencional, se a gente calcular todos os custos e benefícios. A gente pensa produtividade, mas quanto de recurso está se degradando a longo prazo, quantas áreas já foram agrícolas e não são mais por degradação? Tem tembém a questão de poluição de água, de ar, uma série de inconvenientes. Então, é preciso pensar como trabalhar nessa perspectiva”, completa.
No Brasil, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) é responsável por um grande número de estudos e pesquisas voltados para a agricultura familiar e visando o desenvolvimento e a transferência tecnológica e de inovação. Um dos projetos da Embrapa voltados para a agricultura familiar é parte do Programa de Fortalecimento e Crescimento da Embrapa (PAC Embrapa), cujo objetivo é “gerar e disponibilizar tecnologias para assegurar a competitividade e sustentabilidade econômica, social e ambiental à agricultura familiar”.
A degradação do meio ambiente também é um aspecto em evidência nos dias de hoje, e a agricultura é certamente um fator importante para o desmatamento. Para Almeida, da UFRGS, embora não existam ainda respostas definitivas para essas questões ambientais, a conscientização ambiental em uma escala menor, como a da agricultura familiar, é mais fácil de ser realizada. “Eu não estou dizendo que naturalmente a agricultura familiar é mais conservadora que a outra, até porque eu não acredito nisso. Mas eu acho que a questão da conservação ambiental é muito mais factível, é muito mais aplicável no caso da agricultura familiar”, finaliza.
Reportagem de Alessandra Pancetti, da ComCiência (Revista Eletrônica de Jornalismo Científico, LABJOR/SBPC) publicada pelo EcoDebate, 14/01/2010
De uma forma geral, a parcela da população urbana é pouco informada sobre o papel da agricultura familiar em suas vidas, quais nichos ela vem ocupando, principalmente no abastecimento interno, e qual a sua importância social. Entretanto, dados do MDA indicam que 70% de alimentos consumidos no Brasil são provenientes da agricultura familiar, que participa de 9% do produto interno bruto (PIB) do país, ou seja, um terço do agronegócio brasileiro. Mesmo assim, especialistas acreditam que ainda existem muitos desafios a serem enfrentados para a preservação da agricultura familiar pelo país.
Para o professor Manoel Baltasar Baptista da Costa, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), a agricultura familiar assume a importância fundamental de empregadora de uma considerável parcela da população rural. “A questão mais séria é a de geração e distribuição de ocupação e renda”, explica Baltasar. Além disso, segundo ele, em alguns países da Europa, a agricultura familiar é preservada inclusive na perspectiva cultural, e sua importância transcende fatores puramente econômicos. “Eu acho que não podemos ficar nesse reducionismo do lucro e da escala, mesmo porque essa agricultura do agronegócio está nos levando ao suicídio pelo processo de devastação”, opina.
Outra questão em jogo é o êxodo rural, que mudou a configuração demográfica do país em décadas passadas e ainda hoje é preocupante. Por questões econômicas, muitos jovens agricultores acabam por abandonar as propriedades e migram para as cidades. “O jovem não está ficando. Ele está evadindo, e você vê isso, inclusive, em processos de reforma agrária”, afirma Baltasar. Para o professor da UFSCar, atualmente, a maior causa de evasão de jovens do campo é a baixa renda da produção familiar. “Eu, particularmente, acho que com a baixa qualidade de vida urbana, se na agricultura a renda fosse um pouco maior, existiriam condições de fixar muita gente no campo”, completa.
Para o professor Jalcione Pereira de Almeida, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), é necessário política pública consequente, de longa duração e que beneficie esse segmento. “Sem isso, é muito pouco provável que a gente vá conter o êxodo, o abandono e a degradação dessa agricultura”, acredita. Almeida aponta como um dos problemas do setor o fato de que, muitas vezes, mesmo os recursos disponíveis não chegam aos pequenos produtores. “Muitos desses agricultores nunca chegaram na porta de um banco. Então, nesse caso, o banco tem que chegar, a política tem que chegar ao agricultor”, completa.
Segundo Almeida, o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), principal linha de crédito oferecida pelo governo federal ao agricultor familiar, muitas vezes não consegue chegar aos agricultores mais isolados no interior do Rio Grande do Sul, que não têm acesso a telefone ou internet. “Eu acho que tem como pensar políticas baseadas no crédito que possam alavancar a produtividade dessa agricultura familiar e viabilizá-la”, conclui.
Além do Pronaf, que disponibiliza até R$ 40 mil por agricultor, existem outras formas de financiamento via governo federal: Microcrédito Rural; Pronaf Mulher, que atende às mulheres agricultoras; Pronaf Floresta nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, para lavouras que planejam desenvolver projetos de sistemas agroflorestais; e auxílio às cooperativas de produção com base na agricultura familiar. O MDA também disponibiliza aos agricultores familiares financiamentos para veículos utilitários e uma política de seguros, através do Seguro da Agricultura Familiar (Seaf) e do Programa de Garantia de Preços da Agricultura Familiar (PGPAF).
Alinhados com os programas de crédito rural do governo, o Banco do Brasil e a Nossa Caixa também oferecem financiamento através do Pronaf, com juros de 1% a 5% ao ano, dependendo da renda e da destinação do recurso, e prazo de pagamento de até 2 anos, além dos financiamentos rurais tradicionais, que oferecem juros de 6,75% ao ano e prazo de pagamento de até 5 anos.
Mas como conciliar a produção com o aumento da demanda mundial por alimentos? Nos últimos anos, o aumento da população mundial e o consequente aumento da demanda por alimentos colocaram a agricultura como uma questão estratégica que vem ganhado ainda mais importância. Para Almeida, da UFRGS, essa questão é enganosa, pois é um problema essencialmente de distribuição do alimento e não de sua produção. “O que adianta aumentar a produtividade na Europa Ocidental e nos Estados Unidos, se esse aumento de produção vai continuar concentrado? Ou seja, se não houver uma desconcentração, se não houver capacidade competitiva maior entre os diferentes continentes, políticas públicas adequadas e condições para esses países onde tem pobreza e necessidade de implementar a produção, eu acho que dificilmente nós vamos resolver o problema da fome”, pondera. “Ou nós descobrimos formas de produzir alimento viável, compatível ambientalmente, socialmente e economicamente, nessas regiões que têm mais carência de fome e via agricultura familiar, fundamentalmente, ou nada feito”, completa. A questão da tecnologia rural para a agricultura familiar é outro ponto chave. Para Almeida, o cerne da questão é preservar a diversidade da agricultura familiar e evitar a padronização que ocorreu com a agricultura patronal nos últimos 40 anos, após a revolução verde. “É possível pensar em tecnologia, em avanço tecnológico e inovação no sentido de adequá-las às necessidades, às demandas dos diferentes tipos de agriculturas familiares ou de agriculturas de um modo geral, que existem no mundo. E daí nós vamos ter um quadro diverso de demandas que vai promover o desenvolvimento de diferentes agriculturas, que certamente serão muito melhor adaptadas a contextos específicos”, diz.
O professor da UFRGS ainda pondera que apenas recentemente se pensa em modernização, em avanço, em inovação tecnológica, pesquisa e extensão mais voltados para esse segmento específico de agricultura, no mundo inteiro. Segundo ele, a agricultura familiar é potencialmente capaz de alavancar a produção alimentar em escala local e pode fazer frente a essas exigências de alimento para combater a fome e a miséria no mundo.
Baltasar, da UFSCar, acredita que as tecnologias devem ser pensadas cuidadosamente para que sejam factíveis e não se perca de vista o grupo alvo. “Uma tecnologia capital intensiva para um segmento que não tem capital, uma tecnologia estandartizadora do ambiente numa região que a gente trabalha com a biodiversidade”, explica. “Então, eu acho que seria muito importante um esforço maior da área de ensino, de pesquisa e do poder público, na perspectiva de tratar a agricultura familiar de uma forma diferenciada”, continua.
Além disso, o professor da UFSCar acredita que é preciso levar em conta o custo ambiental da atividade agrícola para se medir os ganhos. “Eu acho que se fazendo mais investimentos de pesquisa, em pouco tempo, a agricultura familiar vai se mostrar mais eficiente que a convencional, se a gente calcular todos os custos e benefícios. A gente pensa produtividade, mas quanto de recurso está se degradando a longo prazo, quantas áreas já foram agrícolas e não são mais por degradação? Tem tembém a questão de poluição de água, de ar, uma série de inconvenientes. Então, é preciso pensar como trabalhar nessa perspectiva”, completa.
No Brasil, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) é responsável por um grande número de estudos e pesquisas voltados para a agricultura familiar e visando o desenvolvimento e a transferência tecnológica e de inovação. Um dos projetos da Embrapa voltados para a agricultura familiar é parte do Programa de Fortalecimento e Crescimento da Embrapa (PAC Embrapa), cujo objetivo é “gerar e disponibilizar tecnologias para assegurar a competitividade e sustentabilidade econômica, social e ambiental à agricultura familiar”.
A degradação do meio ambiente também é um aspecto em evidência nos dias de hoje, e a agricultura é certamente um fator importante para o desmatamento. Para Almeida, da UFRGS, embora não existam ainda respostas definitivas para essas questões ambientais, a conscientização ambiental em uma escala menor, como a da agricultura familiar, é mais fácil de ser realizada. “Eu não estou dizendo que naturalmente a agricultura familiar é mais conservadora que a outra, até porque eu não acredito nisso. Mas eu acho que a questão da conservação ambiental é muito mais factível, é muito mais aplicável no caso da agricultura familiar”, finaliza.
Reportagem de Alessandra Pancetti, da ComCiência (Revista Eletrônica de Jornalismo Científico, LABJOR/SBPC) publicada pelo EcoDebate, 14/01/2010
ETANOL: PROPAGANDA ENGANOSA
A política de incentivo ao uso de etanol nos convida novamente ao picadeiro. Como se não bastassem os assaltos constantes ao nosso dinheiro, a gasolina será mais vantajosa que o álcool por alguns meses para a decepção dos portadores de carros bicombustíveis (flex). A propaganda a favor da substituição dos tanques de combustíveis foi ostensiva anos atrás. Hoje nem todos os brasileiros temos paciência para fazer o cálculo dos 70% antes de abastecer. Fomos enganados.
O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento culpou o excesso de chuvas no período de colheita de cana-de-açúcar, que inibiu o corte de mais de 60 milhões de toneladas. A mesma instituição pública federal previu que o mercado de etanol se normalizaria em até 120 dias. Está na moda culpar as chuvas pela incompetência humana no Brasil. Foi assim no apagão de novembro de 2009, que, para mim, não passou de uma conspiração. Evento mal explicado.
Ainda que a produtividade tenha aumentado na transformação de cana-de-açúcar em etanol devido aos avanços tecnológicos, o preço se define pelo mercado internacional. Vale apontar que 2/3 do etanol brasileiro é exportado porque convém à lucratividade da indústria de álcool. Portanto, o argumento das chuvas é pífio. Explico: o álcool não teria faltado aos brasileiros pela colheita menor de cana-de-açúcar se não houvesse sido mandado ao exterior pelo atrativo deste mercado.
Para os produtores, o raciocínio é simples: em vez de produzir dez litros por um real, poderão vender cinco litros pelo mesmo preço final se o lucro for maior.
Se o Brasil tivesse uma política de segurança energética, assim como os Estados Unidos elaboraram a sua para proteger o consumidor estadunidense, o etanol seria um produto barato para o consumo interno e o brasileiro teria prioridade na compra. A servilidade do governo tupiniquim aos latifundiários e o mercado internacional relega-nos a fazer preces para que o preço do etanol baixe ou para que chova menos no próximo verão.
O dessangramento do consumidor brasileiro não pára aí. Com a redução da safra de cana-de-açúcar da Índia, que é um dos maiores produtores mundiais, o Brasil tende a abastecer o aumento de demanda internacional em detrimento do consumo interno. Ainda, fala-se do risco de as usinas substituírem a produção de etanol pela de açúcar devido à alta do preço internacional do segundo produto. Logo se anunciou a política que reduz provisoriamente de 25% a 20% a percentagem de álcool na gasolina a partir de fevereiro. O mercado define se o brasileiro estará satisfeito ou não.
Resumindo: somos imensamente roubados neste país! Por isso que há dois Brasis: um dos tolos e outro dos instruídos. A complacência dos tolos inibe a insatisfação dos instruídos. O resultado da equação é a injustiça com a nação. Aos poucos, a seriedade cede espaço ao circo e a instrução vira motivo de zombaria. Qualquer brasileiro nesta situação colheu a mofa antes do respeito.
Energia é uma questão estratégica em qualquer país. O Estado tem a obrigação de zelar por ela. Em vez disso, o júbilo pela descoberta de petróleo na camada pré-sal contraria o discurso oficial de aumentar o uso de energia limpa no Brasil. Quando o país tem a chance de ser o exemplo mundial com o uso de etanol e biodíesel, sofre a recaída em modelos de apropriação de petróleo.
Propaganda enganosa ou reflexos de um país que não sabe aonde quer chegar?
Bruno Peron é latino-americanista.
Colaboração de Bruno Peron para o EcoDebate, 14/01/2010
O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento culpou o excesso de chuvas no período de colheita de cana-de-açúcar, que inibiu o corte de mais de 60 milhões de toneladas. A mesma instituição pública federal previu que o mercado de etanol se normalizaria em até 120 dias. Está na moda culpar as chuvas pela incompetência humana no Brasil. Foi assim no apagão de novembro de 2009, que, para mim, não passou de uma conspiração. Evento mal explicado.
Ainda que a produtividade tenha aumentado na transformação de cana-de-açúcar em etanol devido aos avanços tecnológicos, o preço se define pelo mercado internacional. Vale apontar que 2/3 do etanol brasileiro é exportado porque convém à lucratividade da indústria de álcool. Portanto, o argumento das chuvas é pífio. Explico: o álcool não teria faltado aos brasileiros pela colheita menor de cana-de-açúcar se não houvesse sido mandado ao exterior pelo atrativo deste mercado.
Para os produtores, o raciocínio é simples: em vez de produzir dez litros por um real, poderão vender cinco litros pelo mesmo preço final se o lucro for maior.
Se o Brasil tivesse uma política de segurança energética, assim como os Estados Unidos elaboraram a sua para proteger o consumidor estadunidense, o etanol seria um produto barato para o consumo interno e o brasileiro teria prioridade na compra. A servilidade do governo tupiniquim aos latifundiários e o mercado internacional relega-nos a fazer preces para que o preço do etanol baixe ou para que chova menos no próximo verão.
O dessangramento do consumidor brasileiro não pára aí. Com a redução da safra de cana-de-açúcar da Índia, que é um dos maiores produtores mundiais, o Brasil tende a abastecer o aumento de demanda internacional em detrimento do consumo interno. Ainda, fala-se do risco de as usinas substituírem a produção de etanol pela de açúcar devido à alta do preço internacional do segundo produto. Logo se anunciou a política que reduz provisoriamente de 25% a 20% a percentagem de álcool na gasolina a partir de fevereiro. O mercado define se o brasileiro estará satisfeito ou não.
Resumindo: somos imensamente roubados neste país! Por isso que há dois Brasis: um dos tolos e outro dos instruídos. A complacência dos tolos inibe a insatisfação dos instruídos. O resultado da equação é a injustiça com a nação. Aos poucos, a seriedade cede espaço ao circo e a instrução vira motivo de zombaria. Qualquer brasileiro nesta situação colheu a mofa antes do respeito.
Energia é uma questão estratégica em qualquer país. O Estado tem a obrigação de zelar por ela. Em vez disso, o júbilo pela descoberta de petróleo na camada pré-sal contraria o discurso oficial de aumentar o uso de energia limpa no Brasil. Quando o país tem a chance de ser o exemplo mundial com o uso de etanol e biodíesel, sofre a recaída em modelos de apropriação de petróleo.
Propaganda enganosa ou reflexos de um país que não sabe aonde quer chegar?
Bruno Peron é latino-americanista.
Colaboração de Bruno Peron para o EcoDebate, 14/01/2010
CONTROLAR FORMIGAS COM HOMEOPATIA
Professor Francisco Câmara ensina preparo de homeopatia
Cleonildes Batista, 48 anos, moradora do assentamento Zumbi dos Palmares, não imaginava que fosse possível combater formigas com um produto feito de... formigas! Ela descobriu isso no Dia de Campo sobre uso de Homeopatia no Controle de Insetos, realizado pelo Itesp, em Iaras, no último dia 13 de abril, em parceria com a Unesp de Botucatu. Participaram do evento técnicos do Itesp e produtores rurais assentados das regiões de Sorocaba, Araras e Itapeva.
O professor Francisco Luiz Araújo Câmara, da Faculdade de Ciências Agronômicas da Unesp, fez uma exposição sobre os usos da homeopatia na agricultura e ensinou, passo a passo, como se faz o nosódio, nome técnico do preparado homeopático. Em resumo, são macerados de 10 a 12 insetos numa solução de glicerina, álcool 70% e água (em partes iguais de 5 ml). No preparo, não pode ser utilizado nenhum utensílio ou recipiente de metal.
Essa mistura deve descansar por 48 horas em um armário de madeira, sem iluminação e distante de aparelhos elétricos. Depois disso, 3 gotas do medicamento são diluídas em 10 ml de álcool, em um vidro escuro, que passa por um processo chamado dinamização, em que a solução é agitada de uma forma especial, batendo-se com o vidro na palma da mão por cem vezes. As diluições e dinamizações ocorrem sucessivas vezes. No caso de Iaras, será usado o preparado C15, ou seja, com 15 dinamizações.
Segundo Francisco Câmara, após a 12a dinamização, não sobra nenhum resquício do material biológico usado. O que produz efeito na homeopatia seria a energia desse material, transmitida nas sucessivas diluições pela "memória da água".
Embora esses conceitos da homeopatia possam parecer estranhos, a eficácia é comprovada. "Quando pulverizamos esse produto na lavoura e nos formigueiros, as formigas recebem uma informação de que alguma coisa está errada e ficam reclusas", explica Câmara.
Ecologicamente correta, a homeopatia não extermina completamente as formigas. Como deixam de sair para cortar folhas, elas morrem por falta de alimento. Apenas um número de formigas suficiente para manter a rainha viva permanece em atividade. "Com isso, nós levamos as formigas a um nível de equilíbrio ecológico com o meio ambiente".
A técnica foi levada pelo professor da Unesp à Guiana, onde a infestação de formigas cortadeiras trazia sérios prejuízos à produção de mandioca. Poucos dias após a aplicação do medicamento, as formigas haviam cessado o corte de folhas.
Entusiasmada, Cleonildes levou para casa o nosódio preparado no curso. Ela própria fará as dinamizações em casa. "A gente gasta muito dinheiro com veneno e as formigas sempre voltam depois de alguns dias. Estou botando fé que a homeopatia vai dar erto. Quero fazer até pra barata".
Cleonildes Batista, 48 anos, moradora do assentamento Zumbi dos Palmares, não imaginava que fosse possível combater formigas com um produto feito de... formigas! Ela descobriu isso no Dia de Campo sobre uso de Homeopatia no Controle de Insetos, realizado pelo Itesp, em Iaras, no último dia 13 de abril, em parceria com a Unesp de Botucatu. Participaram do evento técnicos do Itesp e produtores rurais assentados das regiões de Sorocaba, Araras e Itapeva.
O professor Francisco Luiz Araújo Câmara, da Faculdade de Ciências Agronômicas da Unesp, fez uma exposição sobre os usos da homeopatia na agricultura e ensinou, passo a passo, como se faz o nosódio, nome técnico do preparado homeopático. Em resumo, são macerados de 10 a 12 insetos numa solução de glicerina, álcool 70% e água (em partes iguais de 5 ml). No preparo, não pode ser utilizado nenhum utensílio ou recipiente de metal.
Essa mistura deve descansar por 48 horas em um armário de madeira, sem iluminação e distante de aparelhos elétricos. Depois disso, 3 gotas do medicamento são diluídas em 10 ml de álcool, em um vidro escuro, que passa por um processo chamado dinamização, em que a solução é agitada de uma forma especial, batendo-se com o vidro na palma da mão por cem vezes. As diluições e dinamizações ocorrem sucessivas vezes. No caso de Iaras, será usado o preparado C15, ou seja, com 15 dinamizações.
Segundo Francisco Câmara, após a 12a dinamização, não sobra nenhum resquício do material biológico usado. O que produz efeito na homeopatia seria a energia desse material, transmitida nas sucessivas diluições pela "memória da água".
Embora esses conceitos da homeopatia possam parecer estranhos, a eficácia é comprovada. "Quando pulverizamos esse produto na lavoura e nos formigueiros, as formigas recebem uma informação de que alguma coisa está errada e ficam reclusas", explica Câmara.
Ecologicamente correta, a homeopatia não extermina completamente as formigas. Como deixam de sair para cortar folhas, elas morrem por falta de alimento. Apenas um número de formigas suficiente para manter a rainha viva permanece em atividade. "Com isso, nós levamos as formigas a um nível de equilíbrio ecológico com o meio ambiente".
A técnica foi levada pelo professor da Unesp à Guiana, onde a infestação de formigas cortadeiras trazia sérios prejuízos à produção de mandioca. Poucos dias após a aplicação do medicamento, as formigas haviam cessado o corte de folhas.
Entusiasmada, Cleonildes levou para casa o nosódio preparado no curso. Ela própria fará as dinamizações em casa. "A gente gasta muito dinheiro com veneno e as formigas sempre voltam depois de alguns dias. Estou botando fé que a homeopatia vai dar erto. Quero fazer até pra barata".
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
DUAS VISÕES DE MUNDO SE CONFRONTAM EM COPENHAGUE
Tanto o aquecimento global quanto as perturbações da natureza e a injustiça social mundial são tidas como externalidades, vale dizer, realidades não intencionadas e que por isso não entram na contabilidade geral dos estados e das empresas. Finalmente o que conta mesmo é o lucro e um PIB positivo. Mas estas externalidades se tornaram tão ameaçadoras que estão desestabilizando o sistema-Terra, mostrando a falência do modelo econômico neoliberal e expondo em grave risco o futuro da espécie humana. O artigo é de Leonardo Boff.
Leonardo Boff
Em Copenhague nas discussões sobre as taxas de redução dos gases produtores de mudanças climáticas, duas visões de mundo se confrontam: a da maioria dos que estão fora da Assembléia, vindo de todas as partes do mundo e a dos poucos que estão dentro dela, representando os 192 estados. Estas visões diferentes são prenhes de conseqüências, significando, no seu termo, a garantia ou a destruição de um futuro comum.
Os que estão dentro, fundamentalmente, reafirmam o sistema atual de produção e de consumo mesmo sabendo que implica sacrificação da natureza e criação de desigualdades sociais. Crêem que com algumas regulações e controles a máquina pode continuar produzindo crescimento material e ganhos como ocorria antes da crise.
Mas importa denunciar que exatamente este sistema se constitui no principal causador do aquecimento global emitindo 40 bilhões de toneladas anuais de gases poluentes. Tanto o aquecimento global quanto as perturbações da natureza e a injustiça social mundial são tidas como externalidades, vale dizer, realidades não intencionadas e que por isso não entram na contabilidade geral dos estados e das empresas. Finalmente o que conta mesmo é o lucro e um PIB positivo.
Ocorre que estas externalidades se tornaram tão ameaçadoras que estão desestabilizando o sistema-Terra, mostrando a falência do modelo econômico neoliberal e expondo em grave risco o futuro da espécie humana.
Não passa pela cabeça dos representantes dos povos que a alternativa é a troca de modo de produção que implica uma relação de sinergia com a natureza. Reduzir apenas as emissões de carbono mas mantendo a mesma vontade de pilhagem dos recursos é como se colocássemos um pé no pescoço de alguém e lhe dissésemos: quero sua liberdade mas à condição de continuar com o meu pé em seu pescoço.
Precisamos impugnar a filosofia subjacente a esta cosmovisão. Ela desconhece os limites da Terra, afirma que o ser humano é essencialmente egoista e que por isso não pode ser mudado e que pode dispor da natureza como quiser, que a competição é natural e que pela seleção natural os fracos são engolidos pelos mais fortes e que o mercado é o regulador de toda a vida econômica e social.
Em contraposição reafirmamos que o ser humano é essencialmente cooperativo porque é um ser social. Mas faz-se egoísta quando rompe com sua própria essência. Dando centralidade ao egoísmo, como o faz o sistema do capital, torna impossível uma sociedade de rosto humano. Um fato recente o mostra: em 50 anos os pobres receberam de ajuda dois trilhões de dólares enquanto os bancos em um ano receberam 18 trilhões. Não é a competição que constitui a dinâmica central do universo e da vida mas a cooperação de todos com todos. Depois que se descobriram os genes, as bactérias e os vírus, como principais fatores da evolução, não se pode mais sustentar a seleção natural como se fazia antes. Esta serviu de base para o darwinismo social. O mercado entregue à sua lógica interna, opõe todos contra todos e assim dilacera o tecido social. Postulamos uma sociedade com mercado mas não de mercado.
A outra visão dos representantes da sociedade civil mundial sustenta: a situação da Terra e da humanidade é tão grave que somente o princípio de cooperação e uma nova relação de sinergia e de respeito para com a natureza nos poderão salvar. Sem isso vamos para o abismo que cavamos.
Essa cooperação não é uma virtude qualquer. É aquela que outrora nos permitiu deixar para trás o mundo animal e inaugurar o mundo humano. Somos essencialmente seres cooperativos e solidários sem o que nos entredevoramos. Por isso a economia deve dar lugar à ecologia. Ou fazemos esta virada ou Gaia poderá continuar sem nós.
A forma mais imediata de nos salvar é voltar à ética do cuidado, buscando o trabalho sem exploração, a produção sem contaminação, a competência sem arrogância e a solidariedade a partir dos mais fracos. Este é o grande salto que se impõe neste momento. A partir dele Terra e Humanidade podem entrar num acordo que salvará a ambos
Leonardo Boff é teólogo e escritor.
Leonardo Boff
Em Copenhague nas discussões sobre as taxas de redução dos gases produtores de mudanças climáticas, duas visões de mundo se confrontam: a da maioria dos que estão fora da Assembléia, vindo de todas as partes do mundo e a dos poucos que estão dentro dela, representando os 192 estados. Estas visões diferentes são prenhes de conseqüências, significando, no seu termo, a garantia ou a destruição de um futuro comum.
Os que estão dentro, fundamentalmente, reafirmam o sistema atual de produção e de consumo mesmo sabendo que implica sacrificação da natureza e criação de desigualdades sociais. Crêem que com algumas regulações e controles a máquina pode continuar produzindo crescimento material e ganhos como ocorria antes da crise.
Mas importa denunciar que exatamente este sistema se constitui no principal causador do aquecimento global emitindo 40 bilhões de toneladas anuais de gases poluentes. Tanto o aquecimento global quanto as perturbações da natureza e a injustiça social mundial são tidas como externalidades, vale dizer, realidades não intencionadas e que por isso não entram na contabilidade geral dos estados e das empresas. Finalmente o que conta mesmo é o lucro e um PIB positivo.
Ocorre que estas externalidades se tornaram tão ameaçadoras que estão desestabilizando o sistema-Terra, mostrando a falência do modelo econômico neoliberal e expondo em grave risco o futuro da espécie humana.
Não passa pela cabeça dos representantes dos povos que a alternativa é a troca de modo de produção que implica uma relação de sinergia com a natureza. Reduzir apenas as emissões de carbono mas mantendo a mesma vontade de pilhagem dos recursos é como se colocássemos um pé no pescoço de alguém e lhe dissésemos: quero sua liberdade mas à condição de continuar com o meu pé em seu pescoço.
Precisamos impugnar a filosofia subjacente a esta cosmovisão. Ela desconhece os limites da Terra, afirma que o ser humano é essencialmente egoista e que por isso não pode ser mudado e que pode dispor da natureza como quiser, que a competição é natural e que pela seleção natural os fracos são engolidos pelos mais fortes e que o mercado é o regulador de toda a vida econômica e social.
Em contraposição reafirmamos que o ser humano é essencialmente cooperativo porque é um ser social. Mas faz-se egoísta quando rompe com sua própria essência. Dando centralidade ao egoísmo, como o faz o sistema do capital, torna impossível uma sociedade de rosto humano. Um fato recente o mostra: em 50 anos os pobres receberam de ajuda dois trilhões de dólares enquanto os bancos em um ano receberam 18 trilhões. Não é a competição que constitui a dinâmica central do universo e da vida mas a cooperação de todos com todos. Depois que se descobriram os genes, as bactérias e os vírus, como principais fatores da evolução, não se pode mais sustentar a seleção natural como se fazia antes. Esta serviu de base para o darwinismo social. O mercado entregue à sua lógica interna, opõe todos contra todos e assim dilacera o tecido social. Postulamos uma sociedade com mercado mas não de mercado.
A outra visão dos representantes da sociedade civil mundial sustenta: a situação da Terra e da humanidade é tão grave que somente o princípio de cooperação e uma nova relação de sinergia e de respeito para com a natureza nos poderão salvar. Sem isso vamos para o abismo que cavamos.
Essa cooperação não é uma virtude qualquer. É aquela que outrora nos permitiu deixar para trás o mundo animal e inaugurar o mundo humano. Somos essencialmente seres cooperativos e solidários sem o que nos entredevoramos. Por isso a economia deve dar lugar à ecologia. Ou fazemos esta virada ou Gaia poderá continuar sem nós.
A forma mais imediata de nos salvar é voltar à ética do cuidado, buscando o trabalho sem exploração, a produção sem contaminação, a competência sem arrogância e a solidariedade a partir dos mais fracos. Este é o grande salto que se impõe neste momento. A partir dele Terra e Humanidade podem entrar num acordo que salvará a ambos
Leonardo Boff é teólogo e escritor.
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
ESPECIALISTAS ANALISAM A EVOLUÇÃO DA ECONOMIA SOLIDÁRIA NO BRASIL
Por Tatiana Félix da Adital
Um modelo que se baseia em princípios de cooperação, autonomia e autogestão, que propõe a redução das desigualdades e maior atenção ao meio ambiente. Além de valorizar o trabalho humano, a prática do comércio justo e consumo consciente. Essa é a proposta da Economia Solidária (ES), que é comemorada amanhã, 15 de Dezembro, em todo o Brasil.
O movimento da Economia Solidária tem crescido nos últimos dez anos no país. Essa opinião é compartilhada por três especialistas da área. Joaquim Melo, fundador do Banco Palmas, localizado em Fortaleza, Ceará; Lúcio Uberdan, membro do Forum Gaúcho de EPS e também coordenador da Setorial de ES do Partido dos Trabalhadores no Rio Grande do Sul (RS) e Clóvis Vailant, integrante do Forum Brasileiro de ES.
Joaquim explica que desde o primeiro encontro sobre ES, por volta do ano 2000, o movimento não só cresceu, como também se espalhou pelos estados brasileiros. "Hoje são mais de 20 mil empreendimentos", diz. "Esse movimento tem crescido de baixo para cima. É muito importante ressaltar isso", completa.
Para Lúcio Uberdan "a economia solidária cresce porque nossa sociedade é muito desigual, e ainda, passamos por uma crise financeira mundial". Segundo Clóvis, este novo modelo de desenvolvimento conseguiu pautar os governos, "mas estamos ainda às margens das discussões políticas, nos espaços periféricos".
A visibilidade dessas atividades tem conquistado avanços também no campo das Políticas Públicas com as leis estaduais e municipais para o setor. "Mas falta ainda uma legislação em nível federal", opina Joaquim. Para ele, a criação da Secretaria Nacional de Economia Solidária (Senaes), em 2003, representa um grande avanço, porém, o órgão dispõe de poucos recursos de fomento e apoio aos empreendedores solidários.
Quando se fala em desafios e entraves enfrentados pelo setor, todos são unânimes: dificuldade de acesso ao crédito e falta de espaços de comercialização. "Tem poucos canais para comercializar e os produtos são ainda muito artesanais. Precisa ter avanço qualitativo e tecnológico", critica Joaquim. Ele diz ainda que é preciso ter estratégia comercial.
Os eventos tão comuns na área, como as feiras, não têm sido suficientes para estruturar e garantir o escoamento contínuo dos produtos. Para Lúcio "está na hora de os empreendimentos darem um salto". Ele diz que, embora crescente, o movimento econômico solidário ainda está em construção.
"No mercado capitalista está tudo organizado, você sabe quem é o patrão, quem é o empregado. Mas na Economia Solidária, mesmo tendo a vantagem do trabalho autogestionário, ainda está sendo tudo estruturado", explica.
Uma das grandes lutas deste movimento é pelo apoio e fomento aos empreendimentos, associações e cooperativas, e a criação do marco legal. Para Lúcio, a falta de recursos não dá condições para esses empreendimentos competirem no mercado capitalista. "Não temos políticas públicas que consolidem os grupos solidários", diz.
Joaquim ressalta também o aumento no número de instituições financeiras que atuam dentro da lógica solidária. "Hoje já são 51 bancos comunitários pelo Brasil". Esses bancos representam uma saída e apoio para os pequenos grupos, já que os grandes bancos dificultam o financiamento para essa camada da economia.
Mesmo concordando com o crescimento da ES no Brasil, a tendência para o futuro é vista com reservas e divergências entre os analistas. Joaquim espera a criação do marco legal para a economia solidária no Brasil e diz que "é necessário haver a articulação deste movimento com outros movimentos sociais".
Com análise rigorosa, Lúcio Uberdan diz que vê duas possibilidades para o futuro. Uma é a ES se conformar em ser um movimento social e, junto com outros movimentos, pensarem outra economia também solidária. Ou ainda, continuar crescendo, mas de forma vegetativa, se acomodando e servindo de prestador de serviços e mão-de-obra barata para o sistema capitalista. "Teríamos a autogestão comprometida. E a produção e o lucro viriam definidos de fora", diz.
Com previsão mais otimista, Clóvis acredita que nos próximos 10 anos a ES deve avançar ainda mais. "É um crescimento contínuo". E ainda finaliza dizendo que o surgimento das associações e cooperativas têm sido a saída para os trabalhadores enfrentarem a crise econômica.
Um modelo que se baseia em princípios de cooperação, autonomia e autogestão, que propõe a redução das desigualdades e maior atenção ao meio ambiente. Além de valorizar o trabalho humano, a prática do comércio justo e consumo consciente. Essa é a proposta da Economia Solidária (ES), que é comemorada amanhã, 15 de Dezembro, em todo o Brasil.
O movimento da Economia Solidária tem crescido nos últimos dez anos no país. Essa opinião é compartilhada por três especialistas da área. Joaquim Melo, fundador do Banco Palmas, localizado em Fortaleza, Ceará; Lúcio Uberdan, membro do Forum Gaúcho de EPS e também coordenador da Setorial de ES do Partido dos Trabalhadores no Rio Grande do Sul (RS) e Clóvis Vailant, integrante do Forum Brasileiro de ES.
Joaquim explica que desde o primeiro encontro sobre ES, por volta do ano 2000, o movimento não só cresceu, como também se espalhou pelos estados brasileiros. "Hoje são mais de 20 mil empreendimentos", diz. "Esse movimento tem crescido de baixo para cima. É muito importante ressaltar isso", completa.
Para Lúcio Uberdan "a economia solidária cresce porque nossa sociedade é muito desigual, e ainda, passamos por uma crise financeira mundial". Segundo Clóvis, este novo modelo de desenvolvimento conseguiu pautar os governos, "mas estamos ainda às margens das discussões políticas, nos espaços periféricos".
A visibilidade dessas atividades tem conquistado avanços também no campo das Políticas Públicas com as leis estaduais e municipais para o setor. "Mas falta ainda uma legislação em nível federal", opina Joaquim. Para ele, a criação da Secretaria Nacional de Economia Solidária (Senaes), em 2003, representa um grande avanço, porém, o órgão dispõe de poucos recursos de fomento e apoio aos empreendedores solidários.
Quando se fala em desafios e entraves enfrentados pelo setor, todos são unânimes: dificuldade de acesso ao crédito e falta de espaços de comercialização. "Tem poucos canais para comercializar e os produtos são ainda muito artesanais. Precisa ter avanço qualitativo e tecnológico", critica Joaquim. Ele diz ainda que é preciso ter estratégia comercial.
Os eventos tão comuns na área, como as feiras, não têm sido suficientes para estruturar e garantir o escoamento contínuo dos produtos. Para Lúcio "está na hora de os empreendimentos darem um salto". Ele diz que, embora crescente, o movimento econômico solidário ainda está em construção.
"No mercado capitalista está tudo organizado, você sabe quem é o patrão, quem é o empregado. Mas na Economia Solidária, mesmo tendo a vantagem do trabalho autogestionário, ainda está sendo tudo estruturado", explica.
Uma das grandes lutas deste movimento é pelo apoio e fomento aos empreendimentos, associações e cooperativas, e a criação do marco legal. Para Lúcio, a falta de recursos não dá condições para esses empreendimentos competirem no mercado capitalista. "Não temos políticas públicas que consolidem os grupos solidários", diz.
Joaquim ressalta também o aumento no número de instituições financeiras que atuam dentro da lógica solidária. "Hoje já são 51 bancos comunitários pelo Brasil". Esses bancos representam uma saída e apoio para os pequenos grupos, já que os grandes bancos dificultam o financiamento para essa camada da economia.
Mesmo concordando com o crescimento da ES no Brasil, a tendência para o futuro é vista com reservas e divergências entre os analistas. Joaquim espera a criação do marco legal para a economia solidária no Brasil e diz que "é necessário haver a articulação deste movimento com outros movimentos sociais".
Com análise rigorosa, Lúcio Uberdan diz que vê duas possibilidades para o futuro. Uma é a ES se conformar em ser um movimento social e, junto com outros movimentos, pensarem outra economia também solidária. Ou ainda, continuar crescendo, mas de forma vegetativa, se acomodando e servindo de prestador de serviços e mão-de-obra barata para o sistema capitalista. "Teríamos a autogestão comprometida. E a produção e o lucro viriam definidos de fora", diz.
Com previsão mais otimista, Clóvis acredita que nos próximos 10 anos a ES deve avançar ainda mais. "É um crescimento contínuo". E ainda finaliza dizendo que o surgimento das associações e cooperativas têm sido a saída para os trabalhadores enfrentarem a crise econômica.
DEPUTADOS APROVAM PROIBIÇÃO DE TRANGÊNICOS NA MERENDA ESCOLAR
http://www.alesc.sc.gov.br/portal/imprensa/leitor_noticia.php?codigo=22728
Uma prova de que a persistência tem seu valor é o projeto 382/07, de autoria da deputada Professora Odete de Jesus (PRB). Levado à votação após dois anos de tramitação, foi aprovado na última quinta-feira (3) pela Assembleia de Santa Catarina. Caso seja sancionado pelo Governo do Estado, proibirá o uso de alimentos geneticamente modificados (transgênicos) na merenda escolar dos alunos de estabelecimentos de ensino da rede pública.
O projeto é parte de uma luta antiga da deputada, que vem defendendo a proibição de plantio e comercialização desses produtos. Em 2004, Odete apresentou projeto determinando a afixação de avisos com identificação de Transgênicos nas prateleiras dos Supermercados e similares, modificando parte da Lei 12.128/02. Mesmo tendo sido aprovado em todas as comissões e pelo Plenário, em 2006 recebeu veto do Governo.
Odete de Jesus, que criou e preside o Fórum Permanente dos Transgênicos da Assembleia, mantém reuniões com universidades, o Conselho Técnico Catarinense de Biossegurança (CTCBio), Epagri e Cidasc. Na pauta, a preparação de uma campanha de esclarecimentos da população. Uma pesquisa que já tem mais de quinhentos questionários respondidos serve de subsidio ao projeto. "A partir de campanhas institucionais, queremos levar o conhecimento à sociedade e esclarecer realmente o que são os organismos geneticamente modificados," adianta Odete.
Segundo a deputada, algumas das mais cruciais perguntas a respeito dos efeitos da engenharia genética (EG) e dos organismos geneticamente modificados sobre a saúde das pessoas foram apresentadas a mais de vinte anos. “A maioria delas ainda não foi respondida, ou tem respostas insatisfatórias”, alerta. “Quem sabe o que estamos comendo e bebendo, realmente?”, questiona.
Assessoria de Imprensa
Gabinete deputada Professora
Odete de Jesus (PRB)
Jorn. Ivan Pimentel (48)32212686
==
Proibida a utilização de transgênicos na merenda escolar das escolas da rede pública
http://www.alesc.sc.gov.br/portal/imprensa/leitor_noticia.php?codigo=22716
03/12 - Iniciativa da deputada Professora Odete de Jesus (PRB), o Projeto de Lei nº 382/07, aprovado hoje (3), proíbe a utilização de Organismos Geneticamente Modificados (OGM) (transgênicos) na composição da merenda escolar fornecida aos alunos dos estabelecimentos de ensino da rede pública de Santa Catarina.
A parlamentar lembra que o consumo de OGM vem sofrendo restrições no mundo inteiro pelo fato de que não há a comprovação de que estes produtos não apresentam riscos futuros à saúde da população. “Julgamos necessário que os alunos da rede pública de ensino de Santa Catarina sejam protegidos quanto à utilização de produtos transgênicos na merenda escolar que lhes é oferecida, pelo menos até que haja uma decisão final sobre a possibilidade de utilizar estes produtos sem riscos para a saúde”.
(Rubens Vargas/Divulgação Alesc)
Uma prova de que a persistência tem seu valor é o projeto 382/07, de autoria da deputada Professora Odete de Jesus (PRB). Levado à votação após dois anos de tramitação, foi aprovado na última quinta-feira (3) pela Assembleia de Santa Catarina. Caso seja sancionado pelo Governo do Estado, proibirá o uso de alimentos geneticamente modificados (transgênicos) na merenda escolar dos alunos de estabelecimentos de ensino da rede pública.
O projeto é parte de uma luta antiga da deputada, que vem defendendo a proibição de plantio e comercialização desses produtos. Em 2004, Odete apresentou projeto determinando a afixação de avisos com identificação de Transgênicos nas prateleiras dos Supermercados e similares, modificando parte da Lei 12.128/02. Mesmo tendo sido aprovado em todas as comissões e pelo Plenário, em 2006 recebeu veto do Governo.
Odete de Jesus, que criou e preside o Fórum Permanente dos Transgênicos da Assembleia, mantém reuniões com universidades, o Conselho Técnico Catarinense de Biossegurança (CTCBio), Epagri e Cidasc. Na pauta, a preparação de uma campanha de esclarecimentos da população. Uma pesquisa que já tem mais de quinhentos questionários respondidos serve de subsidio ao projeto. "A partir de campanhas institucionais, queremos levar o conhecimento à sociedade e esclarecer realmente o que são os organismos geneticamente modificados," adianta Odete.
Segundo a deputada, algumas das mais cruciais perguntas a respeito dos efeitos da engenharia genética (EG) e dos organismos geneticamente modificados sobre a saúde das pessoas foram apresentadas a mais de vinte anos. “A maioria delas ainda não foi respondida, ou tem respostas insatisfatórias”, alerta. “Quem sabe o que estamos comendo e bebendo, realmente?”, questiona.
Assessoria de Imprensa
Gabinete deputada Professora
Odete de Jesus (PRB)
Jorn. Ivan Pimentel (48)32212686
==
Proibida a utilização de transgênicos na merenda escolar das escolas da rede pública
http://www.alesc.sc.gov.br/portal/imprensa/leitor_noticia.php?codigo=22716
03/12 - Iniciativa da deputada Professora Odete de Jesus (PRB), o Projeto de Lei nº 382/07, aprovado hoje (3), proíbe a utilização de Organismos Geneticamente Modificados (OGM) (transgênicos) na composição da merenda escolar fornecida aos alunos dos estabelecimentos de ensino da rede pública de Santa Catarina.
A parlamentar lembra que o consumo de OGM vem sofrendo restrições no mundo inteiro pelo fato de que não há a comprovação de que estes produtos não apresentam riscos futuros à saúde da população. “Julgamos necessário que os alunos da rede pública de ensino de Santa Catarina sejam protegidos quanto à utilização de produtos transgênicos na merenda escolar que lhes é oferecida, pelo menos até que haja uma decisão final sobre a possibilidade de utilizar estes produtos sem riscos para a saúde”.
(Rubens Vargas/Divulgação Alesc)
BRASIL APRESENTA PESQUISA QUE CULPA PECUÁRIA PELO EFEITO ESTUFA
A metade dos gases responsáveis pelo efeito estufa emitidos no Brasil procede da pecuária, segundo um estudo apresentado neste sábado em Copenhague, à margem da Conferência das Nações Unidas sobre a Mudança Climática.
Ao analisar as emissões totais do Brasil "foi possível observar que o conjunto das emissões procedentes desta atividade (pecuária) corresponde, aproximadamente, à metade das emissões do Brasil", destaca o trabalho, liderado por Mercedes Bustamante, da Universidade de Brasília.
Os pesquisadores brasileiros concluíram que das 2,2 gigatoneladas de equivalente do dióxido de carbono (CO2) emitidas oficialmente pelo Brasil em 2005, segundo dados do ministério brasileiro de Ciência e Tecnologia, aproximadamente 1.055 gigatoneladas correspondem à pecuária.
As emissões geradas pela pecuária incluem o desmatamento para a formação de pastos, queimadas para a renovação do capim e a fermentação intestinal bovina, que gera importantes quantidades de metano, um dos gases de maior efeito sobre o aquecimento global, disse Roberto Smeraldi, especialista da associação Amigos da Terra-Amazônia Brasileira.
Admitindo que a pecuária "é parte do problema da mudança climática", Smeraldi destacou que "ela também deve ser considerada como parte da solução" nas negociações em Copenhague sobre um novo acordo internacional para combater o aquecimento global.
Smeraldi disse que é preciso fazer a pecuária evoluir, controlando o desmatamento para a formação de pastos, acabando com a impunidade dos crimes climáticos e dando incentivos econômicos aos criadores.
O Brasil possui o maior rebanho bovino do mundo, com mais de 190 milhões de cabeças.
As emissões brasileiras de gases do efeito estufa cresceram 62% entre 1990 e 2005, e mais da metade deste aumento corresponde ao manejo da terra.
O Brasil decidiu em Copenhague adotar um "compromisso voluntário" de reduzir suas emissões de CO2 entre 36% e 39% sobre a previsão de emissões para 2020, e mais da metade desta redução procederá da queda no desmatamento da selva amazônica. O restante dependerá de ações nos setores agropecuário, industrial, energético e siderúrgico.
Ao analisar as emissões totais do Brasil "foi possível observar que o conjunto das emissões procedentes desta atividade (pecuária) corresponde, aproximadamente, à metade das emissões do Brasil", destaca o trabalho, liderado por Mercedes Bustamante, da Universidade de Brasília.
Os pesquisadores brasileiros concluíram que das 2,2 gigatoneladas de equivalente do dióxido de carbono (CO2) emitidas oficialmente pelo Brasil em 2005, segundo dados do ministério brasileiro de Ciência e Tecnologia, aproximadamente 1.055 gigatoneladas correspondem à pecuária.
As emissões geradas pela pecuária incluem o desmatamento para a formação de pastos, queimadas para a renovação do capim e a fermentação intestinal bovina, que gera importantes quantidades de metano, um dos gases de maior efeito sobre o aquecimento global, disse Roberto Smeraldi, especialista da associação Amigos da Terra-Amazônia Brasileira.
Admitindo que a pecuária "é parte do problema da mudança climática", Smeraldi destacou que "ela também deve ser considerada como parte da solução" nas negociações em Copenhague sobre um novo acordo internacional para combater o aquecimento global.
Smeraldi disse que é preciso fazer a pecuária evoluir, controlando o desmatamento para a formação de pastos, acabando com a impunidade dos crimes climáticos e dando incentivos econômicos aos criadores.
O Brasil possui o maior rebanho bovino do mundo, com mais de 190 milhões de cabeças.
As emissões brasileiras de gases do efeito estufa cresceram 62% entre 1990 e 2005, e mais da metade deste aumento corresponde ao manejo da terra.
O Brasil decidiu em Copenhague adotar um "compromisso voluntário" de reduzir suas emissões de CO2 entre 36% e 39% sobre a previsão de emissões para 2020, e mais da metade desta redução procederá da queda no desmatamento da selva amazônica. O restante dependerá de ações nos setores agropecuário, industrial, energético e siderúrgico.
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
PGPAF CONCEDE BÔNUS PARA 21 CULTURAS DA AGRICULTURA FAMILIAR
10/12/2009
Agricultores familiares que cultivam arroz, babaçu (amêndoa), borracha natural (extrativismo), borracha natural (heveicultura), café arábica, café conillon, castanha de caju, castanha do brasil, feijão, girassol, leite, mamona, milho, pequi (fruto), piaçava (fibra), raiz de mandioca, sisal, sorgo, trigo e triticale contam, em dezembro, com o bônus do Programa de Garantia de Preços para a Agricultura Familiar (PGPAF) para os financiamentos dessas 21 culturas (veja tabela anexa).
A portaria do PGPAF foi publicada na última segunda-feira (7), no Diário Oficial da União (DOU). Os preços de mercado e o bônus de desconto referem-se ao mês de novembro de 2009 e têm validade para o período de 10 de dezembro deste ano a 9 de janeiro de 2010.
Culturas e sociobiodiversidade
O feijão tem bônus em 18 estados. Entre eles, Sergipe, onde os agricultores familiares contarão com descontos de 38,63% para o produto. Outro item da cesta básica que conta com abatimento, neste mês, é o arroz (longo fino em casca). Na Bahia, será de 16,28%.
Neste mês, os financiamentos de milho também têm bônus do PGAPF em 12 estados, entre eles o Mato Grosso (com 29,24%).
Alguns produtos da sociobiodiversidade também recebem bônus, em dezembro, como o babaçu (50% no Maranhão), a borracha natural de extrativismo (71,43% no Pará), a castanha de caju (40% no Maranhão) e o pequi (38,71% em Minas Gerais), entre outros.
O PGPAF ainda concede bônus para a raiz da mandioca (com 5,41%, para o Mato Grosso). Segundo dados do último Censo Agropecuário, a agricultura familiar é responsável por 87% da produção nacional de mandioca.
Segundo o diretor de Financiamento de Proteção da Produção da Secretaria de Agricultura Familiar do Ministério do Desenvolvimento Agrário (SAF/MDA), João Luiz Guadagnin, o PGPAF está se tornando cada vez mais nacional ao abranger um número maior de estados e de culturas. “O Programa é um importante estímulo para a diversificação produtiva”, afirma.
Programa
O PGPAF, criado pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) em 2006, possibilita que o agricultor familiar pague os financiamentos de custeio e investimento com um bônus, que corresponde a diferença entre os preços garantidores e o preço de mercado, nos casos em que o valor do produto financiado esteja abaixo do preço de garantia.
Atualmente, o Programa abrange 35 culturas: babaçu, açaí, borracha natural extrativa, pequi e piaçava, algodão, alho, amendoim, borracha natural, caprino de corte, ovinos de corte, castanha-do-brasil, carnaúba, girassol, juta, malva, sisal, sorgo, triticale, arroz, café conilon, café arábica, inhame, cará, castanha de caju, cebola, feijão, leite, mamona, milho, pimenta-do-reino, mandioca, soja, tomate e trigo. Essas culturas respondem por mais de 97% das operações de custeio do Pronaf e mais de 98% das operações de investimento.
O PGPAF é mais uma segurança aos agricultores familiares de que seus financiamentos de custeio e/ou investimento, no momento em que forem pagos aos bancos, terão valor compatível com o custo de produção. “Dessa forma, garante-se que as famílias rurais não terão de se desfazer de seu patrimônio para pagar o financiamento quando os preços estiverem abaixo do custo de produção”, destaca Guadagnin.
Cálculo do PGPAF
O bônus do PGPAF é calculado mensalmente pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e divulgado pela SAF/MDA. A Conab faz um levantamento nas principais praças de comercialização dos produtos da agricultura familiar e que integram o PGPAF.
Para as operações de custeio e investimento, os bônus ficam limitados a R$ 3,5 mil anuais por beneficiário do crédito rural, no período de 1 de janeiro a 31 de dezembro de 2009, independentemente do número de operações de crédito. A partir de janeiro de 2010, o limite sobe para R$ 5 mil/ano, por agricultor.
Nas operações de investimento do Pronaf, o bônus pode ser concedido bastando que um único produto incluído no PGPAF seja gerador de 35%, ou mais, da renda estimada pelo agricultor para o pagamento do financiamento.
A tabela de bônus do PGPAF está disponível no endereço abaixo.
Fonte: http://www.mda.gov.br/portal/index/show/index/cod/134/codInterno/23046#
Agricultores familiares que cultivam arroz, babaçu (amêndoa), borracha natural (extrativismo), borracha natural (heveicultura), café arábica, café conillon, castanha de caju, castanha do brasil, feijão, girassol, leite, mamona, milho, pequi (fruto), piaçava (fibra), raiz de mandioca, sisal, sorgo, trigo e triticale contam, em dezembro, com o bônus do Programa de Garantia de Preços para a Agricultura Familiar (PGPAF) para os financiamentos dessas 21 culturas (veja tabela anexa).
A portaria do PGPAF foi publicada na última segunda-feira (7), no Diário Oficial da União (DOU). Os preços de mercado e o bônus de desconto referem-se ao mês de novembro de 2009 e têm validade para o período de 10 de dezembro deste ano a 9 de janeiro de 2010.
Culturas e sociobiodiversidade
O feijão tem bônus em 18 estados. Entre eles, Sergipe, onde os agricultores familiares contarão com descontos de 38,63% para o produto. Outro item da cesta básica que conta com abatimento, neste mês, é o arroz (longo fino em casca). Na Bahia, será de 16,28%.
Neste mês, os financiamentos de milho também têm bônus do PGAPF em 12 estados, entre eles o Mato Grosso (com 29,24%).
Alguns produtos da sociobiodiversidade também recebem bônus, em dezembro, como o babaçu (50% no Maranhão), a borracha natural de extrativismo (71,43% no Pará), a castanha de caju (40% no Maranhão) e o pequi (38,71% em Minas Gerais), entre outros.
O PGPAF ainda concede bônus para a raiz da mandioca (com 5,41%, para o Mato Grosso). Segundo dados do último Censo Agropecuário, a agricultura familiar é responsável por 87% da produção nacional de mandioca.
Segundo o diretor de Financiamento de Proteção da Produção da Secretaria de Agricultura Familiar do Ministério do Desenvolvimento Agrário (SAF/MDA), João Luiz Guadagnin, o PGPAF está se tornando cada vez mais nacional ao abranger um número maior de estados e de culturas. “O Programa é um importante estímulo para a diversificação produtiva”, afirma.
Programa
O PGPAF, criado pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) em 2006, possibilita que o agricultor familiar pague os financiamentos de custeio e investimento com um bônus, que corresponde a diferença entre os preços garantidores e o preço de mercado, nos casos em que o valor do produto financiado esteja abaixo do preço de garantia.
Atualmente, o Programa abrange 35 culturas: babaçu, açaí, borracha natural extrativa, pequi e piaçava, algodão, alho, amendoim, borracha natural, caprino de corte, ovinos de corte, castanha-do-brasil, carnaúba, girassol, juta, malva, sisal, sorgo, triticale, arroz, café conilon, café arábica, inhame, cará, castanha de caju, cebola, feijão, leite, mamona, milho, pimenta-do-reino, mandioca, soja, tomate e trigo. Essas culturas respondem por mais de 97% das operações de custeio do Pronaf e mais de 98% das operações de investimento.
O PGPAF é mais uma segurança aos agricultores familiares de que seus financiamentos de custeio e/ou investimento, no momento em que forem pagos aos bancos, terão valor compatível com o custo de produção. “Dessa forma, garante-se que as famílias rurais não terão de se desfazer de seu patrimônio para pagar o financiamento quando os preços estiverem abaixo do custo de produção”, destaca Guadagnin.
Cálculo do PGPAF
O bônus do PGPAF é calculado mensalmente pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e divulgado pela SAF/MDA. A Conab faz um levantamento nas principais praças de comercialização dos produtos da agricultura familiar e que integram o PGPAF.
Para as operações de custeio e investimento, os bônus ficam limitados a R$ 3,5 mil anuais por beneficiário do crédito rural, no período de 1 de janeiro a 31 de dezembro de 2009, independentemente do número de operações de crédito. A partir de janeiro de 2010, o limite sobe para R$ 5 mil/ano, por agricultor.
Nas operações de investimento do Pronaf, o bônus pode ser concedido bastando que um único produto incluído no PGPAF seja gerador de 35%, ou mais, da renda estimada pelo agricultor para o pagamento do financiamento.
A tabela de bônus do PGPAF está disponível no endereço abaixo.
Fonte: http://www.mda.gov.br/portal/index/show/index/cod/134/codInterno/23046#
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
INVESTIMENTO EM MONOCULTURA VICIA HUMANOS E AGRAVA A MUDANÇA CLIMÁTICA
FIAN Internacional *
Adital -
Tradução: ADITAL
Comunicado de imprensa
Novo Relatório a ser apresentado amanhã em Copenhague
Heidelberg, 9 de dezembro de 2009 - A publicação "Azúcar Rojo, Desiertos Verdes. Informe Latinoamericano sobre Monocultivos e Violações ao Direito à Alimentação e Habitação adequadas, à água, à terra e ao território", coordenada pela FIAN (FoodFirst Information & Action Network), HIC-AL (Coalizão Internacional para o Hábitat, Escritório para América Latina) e Solidariedade Suécia-América Latina (SAL), será apresentada amanhã, 10 de dezembro, em Copenhague. O relatório, composto por artigos de 26 autores e casos de 10 países latinoamericanos, mostra que o modelo agroindustrial baseado em monocultivos tem graves impactos nos direitos humanos. Os monocultivos também geram destruição da biodiversidade e do ecossistema, desmatamento e aumento de gases de efeito estufa, agravando a mudança climática.
O relatório inclui múltiplos testemunhos que relatam as mencionadas violações aos direitos humanos e suas consequências, bem como uma análise profunda, a partir de distintas perspectivas, sobre o tema dos monocultivos. O documento foi possível graças às contribuições de uma ampla gama de movimentos sociais, ONGs, acadêmicos e jornalistas que oferecem suas reflexões desde sua perspectiva particular, experiência e área de conhecimento. Entre os autores e autoras, podemos mencionar a Relatora Especial da ONU para o Direito a uma Habitação Adequada, sra. Raquel Rolnik; a Inge Armbrecht, que participou no processo de Avaliação Internacional de Ciência e Tecnologia em Agricultura para o Desenvolvimento -Assessment of Agricultural Science and Technology for Development (IAASTD)-; a Miguel Altieri, da Universidade da Califórnia, em Berkeley e, finalmente, a Cristian Courtis, especialista em direitos econômicos, sociais e culturais que elaborou a apresentação do relatório.
0 Nos últimos anos foram produzidas inúmeras publicações e estudos sobre monocultivos agrocombustíveis e os problemas e conflitos a eles associados; no entanto, poucos têm sido escritos a partir da perspectiva dos direitos humanos, razão pela qual esse relatório é importante, assegura Maria Sílvia Emanuelli, do escritório de HIC-AL.
O modelo de agricultura industrial ganhou força particularmente a partir da década de 1950, graças ao apoio do Estado e, atualmente, goza do respaldo massivo do setor privado.Em décadas recentes, as críticas a este sistema têm aumentado, ao mesmo tempo em que seus efeitos negativos têm se tornado mais evidentes.
- No contexto das crises energética, de alimentos e mudança climática, é urgente chamar a atenção sobre os graves problemas causados pelo atual modelo de desenvolvimento, especialmente refletido na agricultura, assegura Sofia Monsalve, da FIAN Internacional.
A atual política de agricultura e comércio que promove uma agricultura baseada no monocultivo tem sido desenhada principalmente pelos governos dos Estados Unidos e pela União Europeia. Os interesses empresariais desses países estão fortemente refletidos nestas políticas com impactos devastadores nos países do Sul.
- Nosso desejo é que esse Relatório sirva como uma importante ferramenta para a difusão de informação e que incida nas políticas, disse Francisco Contreras, de SAL.
Detalhes do lançamento do Relatório:
O Relatório será lançado no KlimaForum09, no seminário "O impacto dos Monocultivos no Direito à Alimentação e Habitação na América Latina", na quinta-feira, 10 de dezembro, às 13 horas, no Blue Hall, Tietgensgade 65, Copenhague. No evento, contaremos com a participação de algumas das pessoas que colaboraram na redação do mesmo, como Ana Filipini, do Movimento Mundial para os Bosques Tropicais do Uruguai e representantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, do Brasil. Também nos acompanharão representantes da Organização Indígena Sulamericana CAOI.
O Relatório será apresentado nesta ocasião em inglês, e no transcurso de 2010, em espanhol.
Contacto:
Jennie Jonsén, FIAN Sweden, E-mail: jennie.jonsen@fian.se, tel: +46 (0) 70 604 17 07
Wilma Strothenke
Coordinator Communication
FIAN International Secretariat
Willy-Brandt-Platz 5/ D-69115 Heidelberg Germany
Tel +49 (0)6221 65300 56
Fax +49 (0)6221 830545
Postal Address: PO Box 102243/ D-69012 Heidelberg Germany
e-mail: strothenke@fian.org
www.fian.org/ www.face-it-act-now.org
* FIAN International Secretariat
Adital -
Tradução: ADITAL
Comunicado de imprensa
Novo Relatório a ser apresentado amanhã em Copenhague
Heidelberg, 9 de dezembro de 2009 - A publicação "Azúcar Rojo, Desiertos Verdes. Informe Latinoamericano sobre Monocultivos e Violações ao Direito à Alimentação e Habitação adequadas, à água, à terra e ao território", coordenada pela FIAN (FoodFirst Information & Action Network), HIC-AL (Coalizão Internacional para o Hábitat, Escritório para América Latina) e Solidariedade Suécia-América Latina (SAL), será apresentada amanhã, 10 de dezembro, em Copenhague. O relatório, composto por artigos de 26 autores e casos de 10 países latinoamericanos, mostra que o modelo agroindustrial baseado em monocultivos tem graves impactos nos direitos humanos. Os monocultivos também geram destruição da biodiversidade e do ecossistema, desmatamento e aumento de gases de efeito estufa, agravando a mudança climática.
O relatório inclui múltiplos testemunhos que relatam as mencionadas violações aos direitos humanos e suas consequências, bem como uma análise profunda, a partir de distintas perspectivas, sobre o tema dos monocultivos. O documento foi possível graças às contribuições de uma ampla gama de movimentos sociais, ONGs, acadêmicos e jornalistas que oferecem suas reflexões desde sua perspectiva particular, experiência e área de conhecimento. Entre os autores e autoras, podemos mencionar a Relatora Especial da ONU para o Direito a uma Habitação Adequada, sra. Raquel Rolnik; a Inge Armbrecht, que participou no processo de Avaliação Internacional de Ciência e Tecnologia em Agricultura para o Desenvolvimento -Assessment of Agricultural Science and Technology for Development (IAASTD)-; a Miguel Altieri, da Universidade da Califórnia, em Berkeley e, finalmente, a Cristian Courtis, especialista em direitos econômicos, sociais e culturais que elaborou a apresentação do relatório.
0 Nos últimos anos foram produzidas inúmeras publicações e estudos sobre monocultivos agrocombustíveis e os problemas e conflitos a eles associados; no entanto, poucos têm sido escritos a partir da perspectiva dos direitos humanos, razão pela qual esse relatório é importante, assegura Maria Sílvia Emanuelli, do escritório de HIC-AL.
O modelo de agricultura industrial ganhou força particularmente a partir da década de 1950, graças ao apoio do Estado e, atualmente, goza do respaldo massivo do setor privado.Em décadas recentes, as críticas a este sistema têm aumentado, ao mesmo tempo em que seus efeitos negativos têm se tornado mais evidentes.
- No contexto das crises energética, de alimentos e mudança climática, é urgente chamar a atenção sobre os graves problemas causados pelo atual modelo de desenvolvimento, especialmente refletido na agricultura, assegura Sofia Monsalve, da FIAN Internacional.
A atual política de agricultura e comércio que promove uma agricultura baseada no monocultivo tem sido desenhada principalmente pelos governos dos Estados Unidos e pela União Europeia. Os interesses empresariais desses países estão fortemente refletidos nestas políticas com impactos devastadores nos países do Sul.
- Nosso desejo é que esse Relatório sirva como uma importante ferramenta para a difusão de informação e que incida nas políticas, disse Francisco Contreras, de SAL.
Detalhes do lançamento do Relatório:
O Relatório será lançado no KlimaForum09, no seminário "O impacto dos Monocultivos no Direito à Alimentação e Habitação na América Latina", na quinta-feira, 10 de dezembro, às 13 horas, no Blue Hall, Tietgensgade 65, Copenhague. No evento, contaremos com a participação de algumas das pessoas que colaboraram na redação do mesmo, como Ana Filipini, do Movimento Mundial para os Bosques Tropicais do Uruguai e representantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, do Brasil. Também nos acompanharão representantes da Organização Indígena Sulamericana CAOI.
O Relatório será apresentado nesta ocasião em inglês, e no transcurso de 2010, em espanhol.
Contacto:
Jennie Jonsén, FIAN Sweden, E-mail: jennie.jonsen@fian.se, tel: +46 (0) 70 604 17 07
Wilma Strothenke
Coordinator Communication
FIAN International Secretariat
Willy-Brandt-Platz 5/ D-69115 Heidelberg Germany
Tel +49 (0)6221 65300 56
Fax +49 (0)6221 830545
Postal Address: PO Box 102243/ D-69012 Heidelberg Germany
e-mail: strothenke@fian.org
www.fian.org/ www.face-it-act-now.org
* FIAN International Secretariat
EQUAÇÃO VERDE
WAGNER COSTA RIBEIRO
ESPECIAL PARA A FOLHA
Discutir temas ambientais deixou de ser uma novidade.
Ao contrário, passou a ser uma obrigação muito menos pelo caráter romântico que o preservacionismo difundiu do que pelo caráter social das questões. A associação entre o social e o ambiental é foco de análises de diversos cientistas sociais que convergem na necessária regulação das ações humanas no ambiente desde o final do século 20.
A partir desse ponto, encontra-se uma série de possibilidades teóricas e metodológicas que ajudam a interpretar o mundo atual em uma perspectiva ambientalista. Essa série de teorias recebeu um impulso por meio de três livros.
O primeiro é "A Terceira Margem", do economista polonês Ignacy Sachs.
Narrado em primeira pessoa, apresenta diversos momentos da vida do pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP, professor emérito da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (Paris) e criador do Centro de Estudos do Brasil Contemporâneo, na mesma instituição.
Sua trajetória pessoal é marcada por idas e vindas por diversos países, incluindo Brasil e Índia. Além disso, teve a oportunidade de participar de momentos cruciais da ordem ambiental internacional, como a Conferência de Estocolmo (1972) e a Rio-92.
Entre as diversas passagens que essa rica obra possui, destaque-se a presença de Sachs na reunião preparatória para Estocolmo em Founex (Suíça), de que resultou, segundo escreveu, o seguinte entendimento: "Nada de parar o crescimento enquanto houver pobres e desigualdades sociais gritantes; mas é imperativo que esse crescimento mude no que se refere a suas modalidades e, sobretudo, à divisão de seus frutos. Precisamos de outro crescimento para um outro desenvolvimento. "
Estava lançada a base para o polêmico desenvolvimento sustentável, que, para o autor, permite construir uma nova forma de organizar a vida.
Esse conceito foi a base do livro "Desenvolvimento, Justiça e Meio Ambiente", organizado por José Augusto Pádua, historiador da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Trata-se de uma coletânea de artigos sobre o desenvolvimento sustentável e sua "aplicação" em algumas situações no Brasil, como a gestão dos biomas do país, a relação com as desigualdades sociais brasileiras, a educação, a justiça ambiental, o setor empresarial e a política externa.
Para o economista da USP José Eli da Veiga, existem restrições ao PIB [Produto Interno Bruto] para avaliar a economia de um país. Aponta que seria oportuno pensar em novos indicadores que possibilitem entender como países como Índia e China devastam seus ambientes naturais em troca de um crescimento econômico per capita muito superior ao conquistado nas últimas décadas pelo Brasil.
Este possui normas de controle ambiental mais eficazes que aqueles países, apesar das dificuldades para fiscalizar sua aplicação.
Juliana e Marcio Santilli, respectivamente advogada e filósofo, comentam o surgimento do socioambientalismo no Brasil, resultado de uma frente de ação política que congregou movimentos sociais e o movimento ambientalista, na segunda metade da década de 80.
Além disso, o associam à redemocratizaçã o do país e à Rio-92, que mobilizou vários segmentos sociais que até então não conversavam, como os Povos da Floresta, liderados por Chico Mendes, e a Central Única dos Trabalhadores, por exemplo.
A outra obra é "A Nova Ordem Ecológica", de Luc Ferry, filósofo francês que já foi ministro da Educação em seu país, lançada originalmente em 1992, em nova tradução.
Ela representou um importante contraponto às teses dos ecologistas profundos, radicais que viam no ambientalismo uma outra forma de reprodução da vida capaz (e necessária) de romper com o capitalismo.
Além disso, o autor dialoga com Michel Serres, que ficou famoso por um livro polêmico, "O Contrato Natural", em que afirma a necessidade de uma nova relação com a natureza, que teria direitos assim como os seres humanos.
Para Ferry, a ecologia profunda seria portadora da visão moral do ambientalismo por considerar a "ordem do mundo boa em si mesma", que seria degradada pela ação humana. Ou seja, estaríamos diante da sacralização da natureza, criticada também pelo economista espanhol Joan Martínez Alier em "O Ecologismo dos Pobres" [ed. Contexto].
Visões de mundo
Sustentabilidade, preservação ambiental, socioambientalismo e ecologismo dos pobres representam correntes teóricas diferentes que visam a conservar a natureza. Cada uma remete a uma visão de sociedade.
O debate sobre emissões de gases-estufa na esfera internacional, ou sobre a manutenção de áreas naturais nas propriedades rurais brasileiras, mostra que, mesmo quando há consenso, as diferenças podem levar à falta de ação política, o que preocupa quem está disposto a edificar um outro mundo.Informação é fundamental para tomar uma posição sobre temas complexos como os ambientais. Mas, no caso do ambientalismo, é possível ir além e buscar matrizes teóricas diferentes para interpretar o mundo contemporâneo. Afinal, já existe o consenso de que é preciso preservar a vida na Terra, inclusive a humana. O problema é qual estilo de vida se quer manter.
WAGNER COSTA RIBEIRO é professor no departamento de geografia e no Instituto de Estudos Avançados da USP. É autor de "Geografia Política da Água" (ed. Annablume).
ESPECIAL PARA A FOLHA
Discutir temas ambientais deixou de ser uma novidade.
Ao contrário, passou a ser uma obrigação muito menos pelo caráter romântico que o preservacionismo difundiu do que pelo caráter social das questões. A associação entre o social e o ambiental é foco de análises de diversos cientistas sociais que convergem na necessária regulação das ações humanas no ambiente desde o final do século 20.
A partir desse ponto, encontra-se uma série de possibilidades teóricas e metodológicas que ajudam a interpretar o mundo atual em uma perspectiva ambientalista. Essa série de teorias recebeu um impulso por meio de três livros.
O primeiro é "A Terceira Margem", do economista polonês Ignacy Sachs.
Narrado em primeira pessoa, apresenta diversos momentos da vida do pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP, professor emérito da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (Paris) e criador do Centro de Estudos do Brasil Contemporâneo, na mesma instituição.
Sua trajetória pessoal é marcada por idas e vindas por diversos países, incluindo Brasil e Índia. Além disso, teve a oportunidade de participar de momentos cruciais da ordem ambiental internacional, como a Conferência de Estocolmo (1972) e a Rio-92.
Entre as diversas passagens que essa rica obra possui, destaque-se a presença de Sachs na reunião preparatória para Estocolmo em Founex (Suíça), de que resultou, segundo escreveu, o seguinte entendimento: "Nada de parar o crescimento enquanto houver pobres e desigualdades sociais gritantes; mas é imperativo que esse crescimento mude no que se refere a suas modalidades e, sobretudo, à divisão de seus frutos. Precisamos de outro crescimento para um outro desenvolvimento. "
Estava lançada a base para o polêmico desenvolvimento sustentável, que, para o autor, permite construir uma nova forma de organizar a vida.
Esse conceito foi a base do livro "Desenvolvimento, Justiça e Meio Ambiente", organizado por José Augusto Pádua, historiador da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Trata-se de uma coletânea de artigos sobre o desenvolvimento sustentável e sua "aplicação" em algumas situações no Brasil, como a gestão dos biomas do país, a relação com as desigualdades sociais brasileiras, a educação, a justiça ambiental, o setor empresarial e a política externa.
Para o economista da USP José Eli da Veiga, existem restrições ao PIB [Produto Interno Bruto] para avaliar a economia de um país. Aponta que seria oportuno pensar em novos indicadores que possibilitem entender como países como Índia e China devastam seus ambientes naturais em troca de um crescimento econômico per capita muito superior ao conquistado nas últimas décadas pelo Brasil.
Este possui normas de controle ambiental mais eficazes que aqueles países, apesar das dificuldades para fiscalizar sua aplicação.
Juliana e Marcio Santilli, respectivamente advogada e filósofo, comentam o surgimento do socioambientalismo no Brasil, resultado de uma frente de ação política que congregou movimentos sociais e o movimento ambientalista, na segunda metade da década de 80.
Além disso, o associam à redemocratizaçã o do país e à Rio-92, que mobilizou vários segmentos sociais que até então não conversavam, como os Povos da Floresta, liderados por Chico Mendes, e a Central Única dos Trabalhadores, por exemplo.
A outra obra é "A Nova Ordem Ecológica", de Luc Ferry, filósofo francês que já foi ministro da Educação em seu país, lançada originalmente em 1992, em nova tradução.
Ela representou um importante contraponto às teses dos ecologistas profundos, radicais que viam no ambientalismo uma outra forma de reprodução da vida capaz (e necessária) de romper com o capitalismo.
Além disso, o autor dialoga com Michel Serres, que ficou famoso por um livro polêmico, "O Contrato Natural", em que afirma a necessidade de uma nova relação com a natureza, que teria direitos assim como os seres humanos.
Para Ferry, a ecologia profunda seria portadora da visão moral do ambientalismo por considerar a "ordem do mundo boa em si mesma", que seria degradada pela ação humana. Ou seja, estaríamos diante da sacralização da natureza, criticada também pelo economista espanhol Joan Martínez Alier em "O Ecologismo dos Pobres" [ed. Contexto].
Visões de mundo
Sustentabilidade, preservação ambiental, socioambientalismo e ecologismo dos pobres representam correntes teóricas diferentes que visam a conservar a natureza. Cada uma remete a uma visão de sociedade.
O debate sobre emissões de gases-estufa na esfera internacional, ou sobre a manutenção de áreas naturais nas propriedades rurais brasileiras, mostra que, mesmo quando há consenso, as diferenças podem levar à falta de ação política, o que preocupa quem está disposto a edificar um outro mundo.Informação é fundamental para tomar uma posição sobre temas complexos como os ambientais. Mas, no caso do ambientalismo, é possível ir além e buscar matrizes teóricas diferentes para interpretar o mundo contemporâneo. Afinal, já existe o consenso de que é preciso preservar a vida na Terra, inclusive a humana. O problema é qual estilo de vida se quer manter.
WAGNER COSTA RIBEIRO é professor no departamento de geografia e no Instituto de Estudos Avançados da USP. É autor de "Geografia Política da Água" (ed. Annablume).
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